Blog da Escola de Referência e Educação Jovens e Adultos Amaury de Medeiros

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19 de abril de 2010

APRENDENDO A APRENDER

Prof. Edvaldo Cavalcante - Antigamente quando frequentávamos a escola (dita tradicional) os professores despejavam conteúdos de forma sistemática executando o que Paulo Freire, sabiamente, chamava de “educação bancária” em que o aluno era um mero depositário de conhecimentos. Ao questionar essa forma inglória de se lecionar, numa dessas rodas de amigos, alguém repetiu aquele adágio presente em muitas palestras de auto-ajuda: “não dê o peixe, ensine a pescar”. Verdade seja dita, meu desencanto com o sistema público de ensino (no que se refere ao aluno) me faz pensar nisso de vez em quando.

A cada dia sedimento a ideia de que, mais que ensinar conteúdos, o importante é aprender a aprender. Quando você tem base pode extrair conhecimento de quase todo lugar. Lembro-me da minha professora de didática lá da Federal, “Roynolka” (não lembro se escreve assim, ela era húngara), a querida professora Roy. Em uma de suas aulas ela usou um gibi da Turma da Mônica. Um dos alunos questionou: “professora, um gibi de história em quadrinhos numa aula de didática na Federal ?”.

Bom, o fato é que a aula era sobre saber reconhecer a realidade e as dificuldades dos alunos. O gibi em questão era do “Chico Bento”. Na historinha ele era perseguido pela professora porque chegava sempre atrasado e às vezes dormia na aula. Num belo dia, a professora dirigia-se para a escola e passou pela zona rural da cidade. De longe ela viu o Chico Bento trabalhando duro no roçado e entendeu o porquê dele chegar sempre atrasado. Apesar de ser apenas um garoto, trabalhava duro e acordava muito cedo.

A professora Roy, nessa aula com material didático inusitado, mostrou o valor de saber 'aprender a aprender'. Nessa mesma aula relatei um fato ocorrido comigo enquanto assistia ao capítulo de uma novela. Num dado momento, numa mesa de restaurante, formou-se um triângulo amoroso: Edu (Reynaldo Gianecchine), Helena (Vera Ficher) e Miguel (Tony Ramos). A filha de Miguel, vendo a cena, comentou: “Veja só um triângulo amoroso inusitado”. O amigo dela, que estava ao lado, completou: “E é um triângulo escaleno”. Os dois riram e a cena seguiu. “Triângulo escaleno?” fiquei pensando. Ignaro em matemática, fui ao dicionário e aprendi que se tratava de um triângulo com lados diferentes. Fiz a analogia e entendi o comentário visto na novela.

O problema é que grande parte das pessoas que assiste às novelas não tem base para extrair algum conhecimento daquela fonte (exígua, reconheço). Falta saber aprender a aprender. Quem tem estrutura absorve cultura nas mais inusitadas fontes. Sorte que me ensinaram a pescar.

12 de fevereiro de 2010

SERIA MESMO QUERER DEMAIS!

Prof. Edvaldo Cavalcante - O que estará pensando o garoto Alcides onde quer que esteja agora? Atrevo-me a imaginar: “Seria mesmo querer demais, tendo nascido pobre na periferia do Recife (segundo as estatísticas, a cidade mais insalubre para os jovens entre 15 e 25 anos no Brasil), me formar biomédico. Numa cidade como a minha, os garotos pobres da periferia aparecem, costumeiramente, naqueles noticiários do meio-dia, que respingam sangue nos telespectadores.
Devem estar falando de mim por lá agora. Um velho lugar-comum diz que 'felicidade de pobre dura pouco'. Imagine o quanto dura a felicidade do pobre miserável. Dura menos ainda. Estava me sentindo um herói, afinal, peitei a miséria e ignorei as estatísticas. Mas não queria ser mártir. Agora, depois da tragédia, muitos falam que eu deveria ter saído do lugar onde nasci. Sair para onde? Em que lugar do Recife pode-se viver com tranquilidade? Em que bairro eu poderia me sentir feliz e seguro? Bem sei que se lembrarão do meu nome por uns dias, desejarão a morte dos que me mataram por semanas e se esquecerão de mim em breve. Virarei mais um nas estatísticas”
Alcides Nascimento Lins, 22 anos, garoto pobre da periferia do Recife, filho de uma catadora de lixo, aprovado em primeiro lugar entre os estudantes de escolas públicas que prestaram vestibular na UFPE, seria diplomado biomédico no mês de setembro desse ano. Foi brutalmente assassinado, em casa, diante da mãe e de duas irmãs. Era madrugada, Alcides estava estudando quando foi morto. Seria mesmo querer demais!

21 de dezembro de 2009

O FIM DOS PROFESSORES

O ano é 2.209 D.C. - ou seja, daqui a duzentos anos - e uma conversa entre avô e neto tem início a partir da seguinte interpelação:

– Vovô, por que o mundo está acabando?

A calma da pergunta revela a inocência da alma infante. E no mesmo tom vem a resposta:

– Porque não existem mais PROFESSORES, meu anjo.

– Professores? Mas o que é isso? O que fazia um professor?

O velho responde, então, que professores eram homens e mulheres elegantes e dedicados, que se expressavam sempre de maneira muito culta e que, muitos anos atrás, transmitiam conhecimentos e ensinavam as pessoas a ler, falar, escrever, se comportar, localizar-se no mundo e na história, entre muitas outras coisas. Principalmente, ensinavam as pessoas a pensar.

– Eles ensinavam tudo isso? Mas eles eram sábios?

– Sim, ensinavam, mas não eram todos sábios. Apenas alguns, os grandes professores, que ensinavam outros professores, e eram amados pelos alunos.

– E como foi que eles desapareceram, vovô?

– Ah, foi tudo parte de um plano secreto e genial, que foi executado aos poucos por alguns vilões da sociedade. O vovô não se lembra direito do que veio primeiro, mas sem dúvida, os políticos ajudaram muito. Eles acabaram com todas as formas de avaliação dos alunos, apenas para mostrar estatísticas de aprovação. Assim, sabendo ou não sabendo alguma coisa, os alunos eram aprovados. Isso liquidou o estímulo para o estudo e apenas os alunos mais interessados conseguiam aprender alguma coisa..

Depois, muitas famílias estimularam a falta de respeito pelos professores, que passaram a ser vistos como empregados de seus filhos. Estes foram ensinados a dizer “eu estou pagando e você tem que me ensinar”, ou “para que estudar se meu pai não estudou e ganha muito mais do que você” ou ainda “meu pai me dá mais de mesada do que você ganha”. Isso quando não iam os próprios pais gritar com os professores nas escolas. Para isso muito ajudou a multiplicação de escolas particulares, as quais, mais interessadas nas mensalidades que na qualidade do ensino, quando recebiam reclamações dos pais, pressionavam os professores, dizendo que eles não estavam conseguindo “gerenciar a relação com o aluno”. Os professores eram vítimas da violência – física, verbal e moral – que lhes era destinada por pobres e ricos. Viraram saco de pancadas de todo mundo.

Além disso, qualquer proposta de ensino sério e inovador sempre esbarrava na obsessão dos pais com a aprovação do filho no vestibular, para qualquer faculdade que fosse. “Ah, eu quero saber se isso que vocês estão ensinando vai fazer meu filho passar no vestibular”, diziam os pais nas reuniões com as escolas. E assim, praticamente todo o ensino foi orientado para os alunos passarem no vestibular. Lá se foi toda a aprendizagem de conceitos, as discussões de ideias, tudo, enfim, virou decoração de fórmulas. Com a Internet, os trabalhos escolares e as fórmulas ficaram acessíveis a todos, e nunca mais ninguém precisou ir à escola para estudar a sério.

Em seguida, os professores foram desmoralizados. Seus salários foram gradativamente sendo esquecidos e ninguém mais queria se dedicar à profissão. Quando alguém criticava a qualidade do ensino, sempre vinha algum tonto dizer que a culpa era do professor. As pessoas também se tornaram descrentes da educação, pois viam que as pessoas “bem sucedidas” eram políticos e empresários que os financiavam, modelos, jogadores de futebol, artistas de novelas da televisão, sindicalistas – enfim, pessoas sem nenhuma formação ou contribuição real para a sociedade. Ah, mas teve um fator chave nessa história toda. Teve uma época longa chamada ditadura, quando os milicos colocaram os professores na alça de mira e quase acabaram com eles, que foram perseguidos, aposentados, expulsos do país, em nome do combate aos subversivos e à instalação de uma república sindical no país. Eles fracassaram, porque a tal da república sindical se instalou, os tais subversivos tomaram o poder, implantaram tal de “educação libertadora” que ninguém nunca soube o que é, fizeram a aprovação automática dos alunos com apoio dos políticos... Foi o tiro de misericórdia nos professores. Não sei o que foi pior – os milicos ou os tais dos subversivos.

– Não conheço essa palavra. O que é um milico, vovô?

– Era, meu filho, era, não é. Também não existem mais...

Autoria Desconhecida

11 de maio de 2009

UM ZERO PARA OS PROFESSORES

Era uma vez... Ai, é só a gente deixar que as histórias comecem sozinhas que elas vão direto para o "Era uma vez.." Está bem. Hoje, vou deixar. Era uma vez, uma menininha que adorava brincar de professora. Quando as amigas chegavam, ela dizia: "Vamos brincar de escolinha? Eu sou a professora." E, se naquele dia ela estivesse brincando sozinha, não tinha problema: ela sentava as bonecas em fileiras a sua frente e ficava dando aula para elas, a voz pausada e grave, o dedo em riste: "Hoje, nós vamos falar de..."

Ela imitava a sua professora na escola, igualzinha, porque admirava-a muito. Tudo era "a minha professora". Todos os dias, a menina contava para a mãe o que tinha acontecido na escola, com os mais miúdos e específicos detalhes que conseguia — e vice-versa, claro, porque sentia que a professora era sua amiga de verdade, uma pessoa em quem ela podia confiar. Sentada no chão com uma, debruçada na mesa da outra, histórias e mais histórias, reais e imaginárias, eram tecidas com os fios castanhos dos cabelos da princesa...

"A minha professora disse que..." era uma frase com a força de mil cavalos. Podia ser o que fosse — nem Deus contestava! (mesmo porque até Ele sabia que não iria adiantar nada!). Um dia, o pai viu quando ela colocava, disfarçadamente, uma maçã na mochila. "Eu já pus a sua merenda.", disse ele. "Esta é para a minha professora", respondeu a menina. O pai começou a rir: "Xi, essa de levar maçã para a professora é manjada...! Acho que não funciona mais, não!" Ela empinou o nariz e não disse nada. No final do dia, estava exultante: "Você disse que não adiantava levar uma maçã para a minha professora, é? Pois vou lhe dizer uma coisa: ela a-d-o-r-o-u!" Quando a professora lhe dizia que ela era linda, era assim que ela se sentia. Quando a professora lhe dizia que ela era inteligente e capaz, era assim que ela se via. Quando a professora lhe dizia "Eu tenho orgulho de ter uma aluna como você!", era com a maior alegria que ela se esforçava mais um pouquinho para ser sempre digna da professora que tinha — e dos elogios, é claro! "O que você vai ser quando crescer?", perguntavam as pessoas. Ela enchia o peito de orgulho e respondia sem piscar: "Professora." Seu destino estava selado! Ela bem que poderia ter escapado! Mas quem resiste ao canto da sereia do prazer de se fazer o que se gosta? Por que ela não foi ser médica-engenheira-advogada-dentista como todo mundo?

Não precisaria, diariamente, levantar-se antes do sol, enfrentar os ônibus e os engarrafamentos, tourear 40 crianças com necessidades individuais — e todas com uma mãe que as achava dignas das mais especiais atenções, e todas com um pai, duas avós, várias tias e inúmeras amigas dando palpite em tudo! E ainda tinha a diretora, sempre exigindo mais, e as colegas, com as suas picuinhas e as suas dificuldades, e a vida normal que não parava, marido, casa, filhos... Ela passava batom no sorriso e seguia em frente, levando alegria e entusiasmo para todos a sua volta, ajudando um, amparando outro, dando mais atenção a um terceiro...

De vez em quando, bem que dava vontade de desistir! Mas aí, justo quando ela estava assim, meio desanimada, devagar-quase-parando, aquela menininha quietinha do cantinho à esquerda levava uma maçã para ela e oferecia-a, timidamente, como quem pede desculpas. Era a maçã do amor mais verdadeira — e ela se esquecia de tudo, e ficava feliz outra vez, e achava que a sua vida era maravilhosa, porque ela estava sempre recebendo triplicada a alegria que dava e ela, então, atiçava a coragem e o desprendimento que sempre tinha de reserva no coração, para que eles empunhassem as suas espadas e atacassem, prontos para destruir todos os monstros que ameaçavam impedi-la de seguir a sua vocação, que era o seu prazer maior.

Há certas coisas que a gente só faz por amor. No sorriso e na espontaneidade das crianças, ela tirava o seu verdadeiro sustento — pois nem mesmo o salário baixo conseguia arrefecer o seu entusiasmo! Ela aprendera a valorizar o que as pessoas têm por dentro, ignorando as belas embalagens cheias de vento, para assim fazer menores as suas próprias necessidades e conseguir ser feliz com o que tinha.

Queridas professoras, ainda bem que Deus as faz professoras ainda crianças — caso contrário, o que seria dos nossos filhos? Sempre gostei de brincar de ser uma bruxa poderosa. E não posso deixar de pensar em como gostaria que isso fosse verdade, nem que fosse por um instante só, apenas para fazer uma única magia: dar um zero a cada uma de vocês — no salário, é claro!

Por Regina Drummond, via Planeta Educação.

Regina Drummond, autora de livros infantis, contadora de histórias e tradutora, vem desenvolvendo, há anos, projetos de estímulo à leitura e eventos para professores e alunos, com palestras, cursos, oficinas pedagógicas, shows e narração de histórias em escolas, bibliotecas, livrarias, centros culturais, clubes, supermercados, shopping-centers, etc, além de participar de feiras e bienais de livros, nacionais e internacionais. Foi coordenadora do Espaço das Atividades Infantis da Bienal Internacional do Livro de São Paulo desde sua inauguração, em 1992, tendo coordenado inclusive o Salão Internacional do Livro/99 e a Primeira Feira Infantil, Juvenil e de Quadrinhos de São Paulo/2003. Há anos vem participando ativamente dos projetos “O Escritor na Cidade”, “Gosto de Ler”, “O Escritor na Biblioteca”, “Paixão de Ler” e “ProLer”, entre outros. Contou histórias em programas de rádio e televisão; escreveu várias peças de teatro infantil, tendo, inclusive, atuado como atriz em algumas delas. Entre outros, tem publicados "A história da Bíblia para jovens", "O passarinho Rafa", "Uma nova vida para o passarinho Rafa", "Uma companheira de viagem para o passarinho Rafa", "Menino brinca com menina?", "Um avião de avô", "Uma menina caprichosa", "Vovô Regina", "Gente miúda e gente graúda", "Eu, bruxa" e "Fábulas de Esopo". Nascida em Minas Gerais, “no meio dos livros”, como gosta de dizer, Regina Drummond nunca trabalhou com outra coisa que não envolvesse livros. É formada em Letras, fala inglês, francês e alemão; atualmente, mora em Munique, na Alemanha, onde coordena o “Espaço Cultural Carlos Drummond de Andrade”, mas está sempre no Brasil para atender sua agenda de muitos compromissos. (http://www.releituras.com/rdrummond_menu.asp)

13 de abril de 2009

A INVENÇÃO DA CULTURA JOVEM

Prof. Edvaldo Cavalcante

Quando falamos em cultura jovem lembramo-nos, de cara, das inúmeras tribos que existem pelo planeta afora. Sim, tudo isso faz parte da cultura jovem, mas reduzi-la a movimentos urbanos (efêmeros) de rebeldia, chega a ser um desrespeito. Até o inicio da década de cinquenta o “pensar” e o “agir” , dos jovens, eram vistos como coisas pequenas e sem importância. Um dos marcos que ajudaram a mudar essa forma errônea de tratar o comportamento jovem foi, sem dúvida, o livro “O Apanhador No Campo de Centeio”, do escritor americano J.D Salinger. Escrito no final da década de 40, essa obra trata a adolescência como uma fase importante da vida que merece atenção e respeito. Holden Caulfield, o personagem central da narrativa, virou um ícone e o livro do Salinger é, até hoje, obrigatório nas escolas americanas.

Eu li o Aapnhador exatamente na minha adolescência. Cheguei a esse livro, não por razões literárias, mas porque está ligado a uma tragédia. Em 1980, no dia 08 de dezembro, para ser mais preciso, Mark Chapman assassinou John Lennon, depois sentou-se na calçada do edifício Dakota e foi ler o “Apanhador No Campo de Centeio”. Curioso, fui conferir a obra.

A década de 60 (século XX) marcou, definitivamente, a explosão da cultura jovem. Os protestos, a rebeldia, a contracultura e o exagero. Na tevê esse processo foi mais lento. Veja o exemplo dos seriados. Até o início da década de 70, o que se via eram produções que abordavam viagens ao espaço (tema em voga, na época), viagens no tempo, mágica, fantasia. Pouco se falava dos problemas enfrentados pela juventude. Até que em 1972, a CBS produziu a série “The Waltons”, um drama que abordava o cotidiano de uma família americana, do estado da Virgínia, na época da grande depressão. Por que é um marco? Bom, primeiro, porque tratava de assuntos reais, os dramas de uma família. Segundo, porque davam grande ênfase aos problemas da juventude: religião, sexualidade, questões políticas. Earl Hamner, Jr, o criador da série, inovou e entrou para a história da tevê.

A importância da cultura jovem, hoje em dia, é medida através de cifras. Mas, da mesma forma que os pioneiros que citei acima, fizeram história, podemos passar por cima dessa triste realidade e fazer a diferença. Segue abaixo a abertura original da série "The Waltons".

17 de janeiro de 2009

"PRECISA-SE DE MATÉRIA-PRIMA PARA CONSTRUIR UM PAÍS"

A crença geral anterior era que Collor não servia, bem como Itamar e Fernando Henrique. Agora dizemos que Lula não serve. E o que vier depois de Lula também não servirá para nada. Por isso estou começando a suspeitar que o problema não está no ladrão e corrupto que foi Collor, ou na farsa que é o Lula. O problema está em nós. Nós como POVO. Nós como matéria prima de um país.

Porque pertenço a um país onde a "ESPERTEZA" é a moeda que sempre é valorizada, tanto ou mais do que o dólar. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família, baseada em valores e respeito aos demais. Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nas calçadas onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO OS DEMAIS ONDE ESTÃO. Pertenço ao país onde as "EMPRESAS PRIVADAS" são papelarias particulares de seus empregados desonestos, que levam para casa, como se fosse correto, folhas de papel, lápis, canetas, clipes e tudo o que possa ser útil para o trabalho dos filhos ... e para eles mesmos. Pertenço a um país onde a gente se sente o máximo porque conseguiu "puxar" a tevê a cabo do vizinho, onde a gente frauda a declaração de imposto de renda para não pagar ou pagar menos impostos. Pertenço a um país onde a impontualidade é um hábito. Onde os diretores das empresas não valorizam o capital humano. Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e depois reclamam do governo por não limpar os esg otos.

Onde fazemos "gatos" para roubarmos luz e água e nos queixamos de como esses serviços estão caros. Onde não existe a cultura pela leitura (exemplo maior é nosso atual Presidente, que recentemente falou que é "muito chato ter que ler") e não há consciência nem memória política, histórica nem econômica.

Onde nossos congressistas trabalham dois dias por semana para aprovar projetos e leis que só servem para afundar ao que não tem, encher o saco ao que tem pouco e beneficiar só a alguns . Pertenço a um país onde as carteiras de motorista e os certificados médicos podem ser "comprados", sem fazer nenhum exame. Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no ônibus, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não dar o lugar.

Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o pedestre. Um país onde fazemos um monte de coisa errada, mas nos esbaldamos em criticar nossos governantes. Quanto mais analiso os defeitos do Fernando Henrique e do Lula, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem "molhei" a mão de um guarda de trânsito para não ser multado. Quanto mais digo o quanto o Dirceu é culpado, melhor sou eu como brasileiro, apesar que ainda hoje de manhã passei para trás um cliente através de uma fraude, o que me ajudou a pagar algumas dívidas. Não. Não. Não. Já basta!. Como "Matéria Prima" de um país, temos muitas coisas boas, mas nos falta muito para sermos os homens e mulheres que nosso país precisa. Esses defeitos, essa "ESPERTEZA BRASILEIRA" congênita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até converter-se em casos de escândalo, essa falta de qualidade humana , mais do que Collor, Itamar, Fernando Henrique ou Lula, é que é real e honestamente ruim, porque todos eles são brasileiros como nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não em outra parte... Me entristeço. Porque, ainda que Lula renunciasse hoje mesmo, o próximo presidente que o suceder terá que continuar trabalhando com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazer nada... Não tenho nenhuma garantia de que alguém o possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá. Nem serviu Collor, nem serviu Itamar, não serviu Fernando Henrique, e nem serve Lula, nem servirá o que vier.

Qual é a alternativa? Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror? Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa "outra coisa" não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados.... igualmente sacaneados!!! É muito gostoso ser brasileiro. Mas quando essa brasilidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, aí a coisa muda... Não esperemos acender uma vela a todos os Santos, a ver se nos mandam um Messias. Nós temos que mudar, um novo governador com os mesmos brasileiros não poderá fazer nada. Está muito claro...... Somos nós os que temos que mudar. Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda nos acontecendo: desculpamos a mediocridade mediante programas de televisão nefastos e francamente tolerantes com o fracasso. É a indústria da desculpa e da estupidez. Agora, depois desta mensagem, francamente decidi procurar o responsável, não para castigá-lo, senão para exigir-lhe (sim, exigir-lhe) que melhore seu comportamento e que não se faça de surdo, de desentendido... Sim, decidi procurar ao responsável e ESTOU SEGURO QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO. Aí está. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO EM OUTRO LADO. E você, o que pensa?.... MEDITE!!!!! Nota: esse texto circula na internet como sendo de autoria do escritor João Ubaldo Ribeiro. O escritor nega a autoria com explica a nota que reproduzimos abaixo: "...mais original foi o baiano Ubaldo, vitimado com o texto "Precisa-se de matéria-prima para construir um país", que diz que o problema do Brasil não são seus governantes e, sim, o povo. "Estou lhe mandando o texto abaixo porque está circulando na internet como meu e, antes que você tome um susto ao eventualmente recebê-lo, quero explicar que não tem nada de meu, eu não escreveria esse negócio nunca. Até o detalhe de molhar a mão do guarda é inverídico, porque não tenho carteira e não dirijo mais há uns trinta anos. Mas não posso fazer nada, só posso desmentir a quem me pergunte. E agora você, a quem lhe perguntarem. Abraços chateados de João Ubaldo", encaminhou, para os amigos." ( Livro: Caiu na rede - Autora: Cora Rónai )

9 de dezembro de 2008

DIÁRIO DE CLASSE – A Metamorfose do Fim do Ano

Estamos chegando ao final do ano letivo, a escola está em polvorosa e uma grande metamorfose acontece. Um dos maiores problemas da escola pública, todo mundo sabe, é a indisciplina. O bom andamento da aula depende da habilidade e da personalidade (forte) do professor que enfrenta diariamente uma batalha. A metamorfose a que me refiro é a transformação por que passam os alunos com desvio de conduta. Com a iminência da reprovação, subitamente eles deixam as brincadeiras de lado e passam a estudar. Bolinhas de papel, nem pensar. Gracinhas durante as aulas são esquecidas. Eles se transformam no aluno que deveriam ser o ano todo. O professor ,acostumado a falta de interesse nas aulas, sabe que se esses pseudo-alunos conseguirem a aprovação, a “carruagem vai virar abóbora” e eles, infelizmente, retomarão o seu comportamento cotidiano.

A escola nos três últimos meses do ano é um palco onde várias peças – trágicas e cômicas – são encenadas. Vários personagens surgem do nada. Tem o aluno que se afastou por motivo de saúde, tem aquele que estava com um problema sério, mas que não pode falar, tem o outro que traz um atestado de um dia e quer justificar as faltas de meses.Deixo registrada aqui a minha tristeza e confesso a minha incapacidade de compreender esse estado de coisas. Claro que os professores também têm sua parcela de culpa, mas o que eu não entendo, repito, é essa metamorfose do fim do ano. Quem estuda o ano todo tem mais chances na vida!

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